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Quebrando o silêncio, enquanto Posso

Texto da Prof. Camila Campos

 

Quebrando o silêncio, enquanto posso.



Prefiro ser criticado como idealista e sonhador inveterado por
continuar, sem relutar, a apostar no ser humano (Paulo Freire –
Pedagogia da Autonomia)





Colegas, o que aconteceu essa semana em Catalão é um absurdo em termos
de direitos humanos, constitucionais, e ate mesmo um ataque à moral e
à ética. Estive presente na manifestação pacífica que resultou no
conflito entre policias armados de um lado e trabalhadores que no
máximo empunhavam bandeiras, de outro. Muitas pessoas viram imagens e
vídeos que circulam na mídia regional. Presenciei toda a agressão e me
sinto no dever, enquanto educadora e enquanto gênero humano, de expor
o que vi e o que penso em relação a isso. Falo todo dia em sala de
aula para meus alunos exercitarem a crítica, se questionarem,
utilizarem sua capacidade de raciocinar, e sua atitude para melhorar a
vida, e seria totalmente incoerente se eu não me posicionasse.

Desde já é importante dizer que acredito no papel histórico do
sujeito, ao mesmo tempo penso que não cabe aqui essa discussão, pois
minha prática claramente mostra o que penso, e essa carta é endereçada
para quem me conhece, logo, estes sabem de onde falo.

Toda a mobilização na porta do Banco Itaú teve início quando uma
família do campo, que inclusive uma das filhas e moradora desta terra
foi minha aluna aqui nesse Campus, teve sua terra leiloada para
pagamento desta dívida. Eles não foram comunicados do leilão, e
ficaram sabendo depois. Perguntam-me a todo momento: “O que você tem
com isso?” e afirmam: “se não pagaram a dívida tem mais é que perder a
terra mesmo”. Eu, com minha formação de vida e acadêmica, me sinto
tranqüila pra dizer que este caso é só um caso dentre tantos outros.

Será que nós aqui na cidade perdemos 30 segundos pra nos perguntar
sobre a situação do homem do campo? Quantas pessoas, agora do campo e
da cidade, humildes, sem reconhecer seus direitos, e mesmo
reconhecendo, estão muitas vezes a mercê do aparelho Estatal que
sabemos, não funciona muito bem para os pobres? Será que existe um
mundo alem do meu gabinete com ar condicionado, e do meu carro, e da
minha casa com cerca elétrica? Infelizmente se passamos a
problematizar a realidade somos ridicularizados, pois a resposta que
esperam de nós é o pragmatismo e a gestão da miséria, e não a
problematização e o xeque mate na estrutura que causa a desordem
social. Queria poder também criticar os bancos sem ser agredida: os
“parceiros” acham radical e os “conservadores” dizem que é clichê
falar mal de banco.

Não bastando colocar a cara a tapa estando presente numa manifestação,
que por sinal dizem ate que está fora de moda, presenciamos cenas de
agressão policial contra um professor. Eu estava lá e vi o que
aconteceu. Meu depoimento pode não valer para a justiça formal, mas
espero, sinceramente, que provoque algum tipo de desconforto em quem
agora lê este relato.

O professor fez uma fala sobre a luta dos camponeses, e ao mesmo
tempo, construiu uma ponte com a conjuntura regional, falou sim dos
escândalos que estão sendo noticiados pela Polícia Federal em relação
a corrupção dentro da instituição militar. Terminou sua fala, e me
disse: “Vou embora dar o sexto horário, mas depois volto”. A próxima
cena que eu vi já foi ele sendo enforcado por um policial, depois, a
violência generalizada: várias pessoas sentindo na pele a força do
cacete, um senhor de idade sangrando muito, uma estudante grávida que
protestava em frente a viatura sendo atropelada. E ainda sou obrigada
a escutar: foi atropelada porque estava em frente a viatura, mas
devolvo a pergunta: é passando por cima que dispersa manifestante ou é
usando outros policiais?

Enfim, a confusão resultou na prisão de dois alunos, nas feridas de
outros, e, pessoalmente serviu para eu lembrar de outra coisa que
aconteceu comigo em 2003, quando eu era estudante do CAC. Em situação
de protesto de populares contrários ao espancamento de um bêbado,
fomos brutalmente agredidos, e em momento posterior respondi a
processo movido por um policial, que por sinal estava envolvido na
repressão na porta do Itaú. A lógica é: apanhamos e ainda cumprimos
pena! É essa a lógica que queremos? Naquele momento estávamos
sozinhos, e pagamos sozinhos. Apoios tímidos vieram sim. Outros ate
ajudaram na organização da minha defesa. Mas ninguém fez agora o que
faço: colocar a cara a tapa e dizer: EU VI, FOI BRUTAL, FOI AGRESSÃO E
EU NÃO CONCORDO!

Não precisa apoiar a causa pra saber que a manifestação é resguardada,
enquanto direito, pela Constituição Federal, nem pra saber que
policial não tem que prender ninguém porque se sentiu ofendido, para
isso existem os artigos de calunia e difamação no código criminal. O
que pedimos é em primeiro lugar respeito, e em segundo lugar, caso
apóie a causa dos camponeses ou mesmo também se sinta agredido com o
que aconteceu com o professor e com os estudantes, movimente-se.

É muito triste saber que o campus Catalão, local marcado pela luta de
tantos guerreiros e guerreiras que defenderam arduamente esta
universidade pública, alguns inclusive colocando seus empregos em
risco, vive esse momento de desarticulação política. Demoramos demais
pra mandar aquela moção sobre o Pacto Pela Educação, e isso deve
servir de exemplo: temos receio de nos posicionar pois isso pode nos
afetar politicamente. Isso é correto? Devemos ter medo? Qual o preço
que pagamos por sermos “cautelosos”? Formamos a sociedade para a
cautela?

Entendo que na universidade a falta de posicionamento pra algumas
questões é uma tentativa de não fechar portas pra outras questões, mas
onde fica a tal autonomia que tanto lutamos para que fosse efetivada?
Alguns dirão: “a universidade não é sindicato, jovenzinha!” e,
acreditem, eu sei disso. Mas sei que é uma instituição formadora e
portanto, faz parte de sua natureza lidar com problemas da sociedade.
Ou estamos apenas adestrando pessoas para o mercado de trabalho?

Com 26 anos, uma fantástica graduação em pedagogia, um ótimo mestrado
em Educação, e uma vida dura pois sou filha de trabalhadores, eu me
nego a fazer vista grossa. As injustiças do mundo gritam em minha
cabeça e as imagens que vi esta semana, me causam lágrimas. Por um
lado estou triste, mas não surpresa, em relação a postura dos
policiais a respeito da liberdade de expressão, mas por outro, me
sinto desamparada como em 2003, e com medo de que no final, esses
agredidos passem pelo que passei sozinhos também: ameaças de morte,
tortura psicológica, invasão e arrombamento de suas casas.

A academia está muito preocupada com sua expansão e sua produção, mas
e com a formação dos acadêmicos, seria a mesma preocupação? Será que
estamos sendo professores ou só treinadores? É normal sentir medo de
se expor dentro de uma universidade? É vergonhoso vestir a camisa do
povo ao invés da camisa da qualis?

Hoje resolvi falar. Já devia ter falado antes sobre coisas que também
senti necessidade, mas me calei por ver que ninguém responde nada
mesmo nesta lista, e que é mais um “aviso paroquial” do que lista de
discussão. Vejo que as pessoas não se expõem publicamente, mas fazem
pior nos corredores. Fico muito triste com os que assumem essa
postura, mas é uma realidade no campus. Fico mais triste ainda com
professores que assumem ate uns “ismos” mas não se posicionam em
questões que gritam do lado de fora da porteira do campus.

Dessa vez não vou ficar remoendo confusão. Encarem isso não como um
pedido pra vir para nossas causas, mas como uma tentativa quase que
humilhante de dizer: se posicionem! Não sou ingênua o bastante pra
achar que o silêncio não é um posicionamento, mas as vezes a ausência
de palavras não é suficiente. Se concordam com tudo isso que está
posto, assumam isso!

A ADCAC vai fazer alguma coisa já que seu sindicalizado foi agredido?
Tem curso que já se posicionou oficialmente, mas não me dirijo aos
colegiados somente, mas a cada professor e professora deste campus.

Termino dizendo novamente que não é preciso concordar com o que foi
dito e realizado por nossa parte, nem estampar uma camiseta com frases
de impacto, as vezes nem responder a isso aqui. Mas em suas vidas, com
as pessoas que vocês lidam (de alunos ate vizinhos) provoquem debates,
não precisamos aceitar tudo calados. Não precisamos aceitar tudo
calados. Não precisamos aceitar tudo. Não precisamos aceitar. Não
precisamos. Não!



Profa. Camila Campos
 

Fonte: UFG/CAC